¡ Ya Basta!
Como alunos deste digníssimo curso de Geografia, resolvemos utilizar desta velha
forma de expressão, conhecida como manifesto, para explicitar um problema há muito
cotidiano em nossas relações infantis, digo estudantis: A escassez de livros para
empréstimo da biblioteca.
Este problema surgiu desde o momento em que passamos a habitar este honrado prédio,
conhecido pela alcunha de IGC. Assim que fôra preciso consultar o primeiro de todos
os livros relacionados pelos professores a nossa luta se travou. Sejamos mais
claros...
Os professores indicam livros para serem lidos. É praxe de toda faculdade. Os textos
são relacionados e cobrados nas aulas seguintes. Mas, como a biblioteca não dispõe
de livros para todos os 40/45 alunos que compõe uma classe, é natural que alguns
fiquem sem acesso aos textos. Até aí tudo normal, acontece nas melhores famílias...
Porém, um fenômeno sem precedentes e/ou diagnósticos vem afetando os alunos do curso
de geografia (em especial os do terceiro período): a bibliofilia. Neologismo grego
que quer dizer AMIGO DOS LIVROS. Biblio = livros + filia = amigo. (forçado né?! Mas
é melhor do que nada...). Assim detecta-se também uma classe de aula bipolarizada,
concentrando uma dezena de BIBLIOFILÍACOS, conhecidos como "elite" ou "batalhão de
frente" e o restante apelidado jocosamente de "ralé", grupo ao qual os autores deste
texto "supostamente" participam.
Este fenômeno se traduz em um comportamento mais ou menos como o descrito abaixo,
portanto, fique atento, você também pode identificar alguém BIBLIOFILÍACO:
* Conhece muito bem as estantes da biblioteca, portanto, enquanto a "ralé" perde
tempo procurando o título no computador a "elite" chega sorridente ao balcão de
empréstimos com um ou mais exemplares na mão.
* Já são conhecidos das (dos) bibliotecárias (os), sendo tratados pelo nome ou mesmo
apelido.
* Usam telefone celular para discar da sala de aula diretamente para a biblioteca no
momento em que o livro é solicitado pelo professor, garantindo assim seu valioso
exemplar.
* Possuem um magnífico preparo físico, o que lhes permite subir as escadas que levam
à biblioteca em tempo record, chegando primeiro à estante de livros.
* Dicção perfeita. Chegam à biblioteca e disparam contra a bibliotecária de plantão:
"bom dia, toma minha carteirinha e me dá uma chave de armário vazio"... de forma tal
que as pessoas que lá trabalham entendem o que eles dizem e atendem de maneira
rápida e eficaz...
* Sabem como se portar na corrida aos livros. Na maioria das vezes possuem
comparsas. Estes comparsas seguram a pasta (ou mochila) deste bibliofilíaco enquanto
ele dispara escada acima, com o nome do livro e autor devidamente anotados em um
pedaço de papel... assim ele consegue um melhor desempenho, aliado à sua "visão além
do alcance" que o permite visualizar o nome do livro e do autor na vertical e
retirá-lo da estante sem derrubar nenhum que está próximo.
* Assustam o próprio funcionário da biblioteca. Quando chegam com um livro para ser
retirado, o funcionário entra na "ficha" do usuário e depara-se com uma gama de
livros, mapas, revistas, vídeos, gibis, manuais, quebra-cabeças, e outras
parafernálias que são retirados pela elite, tomando um susto, onde geralmente
exclamam: "NÓSSA!!! ISSO TUDO!!!!".
Deboches à parte, muito do que foi dito acima é parte de uma realidade não tão
fantasiosa assim. Isso não é brincadeira. Desta forma ficaremos prejudicados por
causa do egoísmo de meia dúzia. Isso não é justo. Se nós que estudamos no mesmo
horário não conseguimos pegar os livros, imaginem aqueles que estudam no turno da
noite? Não acreditamos que as pessoas que estão pegando estes livros e
monopolizando-os em suas lindas estantes estejam fazendo isso com o intuito de
prejudicar a nós, a ralé.
É por isso que estamos lançando mão deste manifesto sem destino e anônimo (apesar de
que a maioria sabe quem escreveu e a quem se destina).
Não dá mais para continuar sendo execrado pelos professores por falta de leitura dos
textos. É cansativo ter que correr em todos os sebos da cidade atrás dos livros e
não achá-los. A maioria é da década passada, portanto fora de catálogo e impossíveis
de se achar usado. Desgasta também não poder tirar xerox do livro, a "lei" proíbe...
Por que não pegar o livro e devolvê-lo logo? Ou melhor ainda. Quando você for
perguntado se está com o livro, não minta. Ninguém vai toma-lo de você. Apenas é
preciso socializar, emprestar para tirar xerox. Olha que coisa mais linda... Uma
pessoa pega o livro na biblioteca, vai até a FAFICH, tira um xerox do texto (o que é
gratuito), coloca-o na pasta da tia Cláudia, avisa a todos, pega o livro, leva pra
casa e pronto... ninguém vai reclamar... manifestos não serão escritos e todos
ficarão felizes. Utópico né?! Aprendemos com o Milton Santos.
Podemos até estar pedindo muito, mas cremos que não! A união da turma começa por
estas pequenas coisas. Não adianta sorrir todas as manhãs dizendo "bom dia" e
apunhalar pelas costas na hora de pegar os textos. Se não conseguimos organizar a
disponibilidade de textos, imagine o "tão sonhado" baile de formatura?! Vai ser
cômico...
Essa competição deve ter explicações nas bolsas que a faculdade favorece àqueles
alunos que dispõem das melhores notas. Só pode ser isso. E se for, nós lamentamos. A
que ponto a miséria humana chegou...!? Lutar contra seus próprios colegas por causa
de um salário mínimo? Não, mil vezes não. Não deve ser isso. Acreditamos que o
fenômeno de Bibliofilia se deve ao fator esquecimento. É isso. As pessoas se
esqueceram do pequeno número de livros da biblioteca e agora que foram alertadas,
provavelmente, irão pensar no próximo.
Se este manifesto não surtir efeito nós teremos que usar de mais uma arma. A
campanha da fraternidade da Igreja Católica. O tema do ano será "Vamos coletivizar o
conhecimento e não monopolizar os livros". Já pensou que legal, Padre Marcelo Rossi
cantando "...erguei as mãos e devolva os livros..." ou então "...o senhor tem muito
livros, muitos livros ele tem..."
ALTRUÍSMO é a palavra. Se você não sabe o que é isso, aproveite e vá a biblioteca
consultar o dicionário, mas não o leve para casa. Obrigado.